Mulheres plus size enfrentam preconceitos e fantasmas no terreno amoroso
Mulheres plus size enfrentam preconceitos e fantasmas no terreno amoroso
Denise Presotto, 29 anos é modelo exclusiva de marca de roupas para mulheres grandes e é exceção entre as insatisfeitas com próprio corpo
Publicações de moda em todo o mundo têm colocado mulheres reais em matérias e capas; a holandesa Lara Stone faz sucesso usando um manequim maior do que suas colegas e atualmente é a número 1 do mundo; discussões sobre a magreza e saúde estão presentes em semanas de moda nas principais capitais mundiais. E, em São Paulo, foi realizada em janeiro pela primeira vez a Fashion Weekend Plus Size, evento promovido por lojas especializadas no público GG e que contou com mulheres com manequim entre 44 e 50 na passarela.
Há um movimento contra a ditadura da magreza que reina dentro e fora das passarelas. Mesmo assim, a vida real para quem está acima do peso não é fácil. Principalmente para mulheres no território amoroso. O terreno é tão complicado que até as que se dizem bem-resolvidas mostram ter lá suas neuras.
Na TV, a cantora Preta Gil disse que apesar de ser gorda, consegue ter muitos namorados. O "apesar" na frase já demonstra que mesmo ela acredita na dificuldade de uma mulher fora das medidas encontrar um namorado. "Eu tenho os meus truques, eu tenho um bom papo, sou simpática. Além disso, eu tomo iniciativa num grau que beira a doença", afirmou."Preta Gil pega todo mundo, come geral. Mas estou aqui cheia de estrias. Na hora de transar comigo, pode crer que eu vou apagar a luz", já disse a cantora.
Medo
"Não tem como, elas têm medo do olhar do outro", afirmou o psiquiatra Arthur Kaufman, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo. "Muitas não vão à praia, porque na fantasia delas todo mundo vai parar para vê-las chegando. E o olhar do parceiro também é perseguidor. E não consegue suportar o olhar de outra mulher. Do outro lado, a não ser em casos extremos, como uma celulite escandalosa, não há homem que repare nesses detalhes, mas para ela é a destruição", disse Kaufmann, sobre as declaradas estrias de Preta Gil.
Além das declarações controversas de famosas, o cinema também não ajuda. "O casal protagonista é sempre magro e a jovem gorda geralmente é a melhor amiga", diz Kaufmann. "É um problema de mulher para mulher. O olhar sobre a outra é muito cruel. As obesas são vistas como aberração, principalmente pelas magras, já que o ser humano projeta para fora tudo o que não quer para si", disse Patrícia Spada, psicóloga, autora do livro Obesidade e Sofrimento Psíquico e coordenadora do curso "A Psicologia nos Distúrbios Alimentares", ministrado pela Unifesp. Gordinhas não costumam ouvir palavras de incentivo nem das amigas e, no lugar, levam um "Acho que não vai rolar com esse cara que você está a fim."
Segundo a especialista, não vivemos uma ditadura estética e, sim, da magreza. "A estética hoje é vista apenas de um ângulo. A pessoa pode estar anêmica, mas como está magra, está tudo bem", afirmou. Para Patrícia, resolver o problema para essas mulheres, na maioria das vezes, passa longe da balança. "É questão de saúde e de realização pessoal, tomando consciência dos seus muitos pontos positivos, da sua personalidade, até porque muitas não conseguem emagrecer mesmo", disse.
Virada
O segredo para a virada é começar a ter contato com seu mundo interior, com o qual não se relacionava porque estava encoberto por toda atenção à gordura, e descobrir suas potencialidades. "A mulher muda por dentro, passa a ter autoconfiança, a confiar no seu taco, seja adolescente ou adulta. Elas entendem que sempre vai ter mulher mais bonita do que você e esse não é ponto que faz diferença", afirmou.
A prova do que diz a psicóloga é a modelo norte-americana Crystal Renn, que descreve sua trajetória no livro Hungry (Faminta), lançado no ano passado. "Eu sou o exemplo de que você pode amar o tamanho que você tem. Tive de perder 35 kg (junto com tufos de cabelo, massa muscular, capacidade de concentração e alegria de viver) antes de encontrar minha sanidade. Eu engordei e nisso obtive muito mais sucesso como modelo. Aceitar-se como sou me devolveu a curiosidade intelectual que tinha quando criança. Isso me levou a ter sucesso na carreira, no amor. Sou a prova de que a vida não tem de esperar até você ficar magra", escreveu a modelo, uma das mais famosas tops plus size atualmente, que usa manequim 44 e que começou sua luta para perder peso aos 14 anos, inspirada por uma imagem da modelo Gisele Bündchen e pelos maus conselhos de um funcionário de agência de modelos, que recomendou que ela mudasse totalmente seu corpo.
Modelo exclusiva
A exemplo da modelo americana, Denise Presotto, 29 anos, é modelo exclusiva da grife Palank Fashion, e está acima do peso há 10 anos. Começou a engordar aos poucos após o casamento, mas nunca teve problemas com peso.
"Sou feliz e não é porque sou modelo. Trabalho na área há seis anos e hoje tenho de comer para manter o peso", disse. Apesar de bem-resolvida, Denise admite que não é fácil ser gordinha. "Quando vou fazer compras não acho nada que me sirva nas marcas comuns, não entro no GG ou nas peças 46 ou 48. E sinto preconceito em alguns lugares, mas é preciso tirar de letra", disse ela, que mede 1,75 m e pesa 88 kg.
Denise diz que suas amigas que estão acima do peso são bem estressadas com a questão. "Me falam que não sabem como vivo feliz. E digo que quando você assume o tamanho que tem, passa a viver bem. Passa a se admirar, começa a se aceitar e percebe que perdeu tempo buscando algo que nunca iria atingir."
Fantasia
Segundo os especialistas, a grande maioria das obesas que reclamam de sentimento de solidão e de falta de sucesso na vida amorosa cultivam a fantasia de que os homens só se interessam pelas magrinhas e que elas não passam de acompanhantes quando o programa é em grupo.
Rejeitam até os homens que dizem preferir mulheres mais gostosonas, que têm onde pegar. "Dizem que querem ficar magras para si e não para os homens", diz Kaufmann. Outro dado que interfere no sucesso da vida amorosa é a rejeição por certos tipos de homens, como os gordos. "Acham que são homens de segunda categoria, que estão sobrando assim como elas estão sobrando", disse.